Pelas sete da manhã já o sol bate de frente mas não ofusca o condutor com rumo a nascente.
Passando em Carviçais, cruzamento de Freixo, Fornos, Lagoaça, quase Castelo Branco de Mogadouro, Meirinhos e, passando uma ponte nova e curva sobre o Sabor, rondando o Sardão, Parada, enfim, o vale do Sabor num entre-trecho.
Renasce-se por raízes, neste caso de prunus, malus, pyrus, corylus avellana, está-se a ver que são árvores, bem comuns, fruteiras que envolvem designadamente pêra e maçã.
As videiras, de uva de mesa, dão pelo nome de sulima, muscat Hambourg, cardinal e D. Maria.
São plantas acomodadas com sol e fresco.
Falta montar a rega gota-a-gota, que lhes vai dar alma mais visível em termos de crescimento e resistência perante a previsível estiagem (ao menos nos seus primeiros anos, naquele sítio plantadas, precisam de amparo reforçado, e a terra é boa porque impura e naturalmente misturada com roço, pedra mole que contribui para conservar a frescura de verão).
Para se colocarem plantas na terra têm que sair outras, são postas à margem, de algum modo derrubadas (daqui para fora, vá), entre elas rizomas de açucenas ou lírios (agora totalmente ao léu). Levanta-se uma pedra e os bichinhos que nela se abrigam ficam em pânico. Se vier o melro, ali por perto, agradece.
Derrubam-se mastodontes centenários num misto de necessidade pragmática e uma certa pena, ingredientes do avançar do mundo em nós sem que entretanto nos arrase a fazenda, pela incúria a natureza prega partidas maiores.
Podemos escolher entre a facilitação da vida ao pássaro ou a natureza como está, aparentemente quieta.
Nestes propósitos de querer ver, conclui-se que progresso transporta, desde logo, também, anti-progresso ou destruição e não há como sair disso, é a vida a dar sinal que numa primeira análise sempre confunde e angustia.
Custa aprofundar mas mais custa ficar pela superfície. Tudo, em diversa escala e em certo sentido, é cerceado por dor que todavia passa em face de «paisagens» em renovação, começando sempre por ser revelada mais a debilidade que a pujança (até no enlevo convencional isso se dá, vistas as coisas como elas são).
Há sempre, todavia, lugar a um permanecer e a fraturante cisma (em duplo e amplo sentido).
Pelo sim pelo não, e admitindo que toda a religiosidade conserva ainda traços indeléveis de ideologia pagã, podemos tirar do terreno do novo plantio algumas das açucenas que foram arrasadas pelo trator e trazê-las para o quintal,
mas,
hélas, temos de escolher,
e mandam os bons costumes,
em plantas,
que se abandone sempre
alguma coisa, ou a bíblica
erva daninha ou
os rebentos mais
enfezados.
(faz todo o serviço que houver na plausível acomodação das coisas e não penses mais nisso).
Vamos acender o lume, que a esta hora e nesta altura do ano, aqui, ainda se agradece (cuidado com as «cabras»).
Para nós, casualmente, pode ser, de certo modo, hoje, o dia do pai e também o dia da mãe, já para não falar numa fada madrinha que sempre há-de salvar pequenos mundos na sua por muitos olvidada grandeza.
As flores bordejando os caminhos são em maio, todavia já estão lá, a gente é que ainda as não vislumbra (tirando as clássicas amendoeiras, que fazem o gáudio da industriosa restauração e contribuem, indirectamente, para deteriorar a relação preço-qualidade de serviço dada a costumeira enchente de autocarros à porta das pensões e dos restaurantes).
À primavera só cabe dar mostras, por aqui das valentes. Haja saúde.
Carlos Sambade
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